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1 de outubro de 2010

Pequena biografia de Patativa do Assaré / ABC do Nordeste Flagelado


Antônio Gonçalves da Silva, dito Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Foi casado com D. Belinha, de cujo consórcio nasceram nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956,  Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel. Patativa do Assaré era unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar onde chegou, tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. 'Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão', declamava.
   Cresceu ouvindo histórias, os ponteios da viola e folhetos de cordel. Em pouco tempo, a fama de menino violeiro se espalhou. Com oito anos trocou uma ovelha do pai por uma viola. Dez anos depois, viajou para o Pará e enfrentou muita peleja com cantadores. Quando voltou, estava consagrado: era o Patativa do Assaré. Nessa época os poetas populares vicejavam e muitos eram chamados de 'patativas' porque viviam cantando versos. Ele era apenas um deles. Para ser melhor identificado, adotou o nome de sua cidade.
   Filho de pequenos proprietários rurais, Patativa, nascido Antônio Gonçalves da Silva em Assaré, a 490 quilômetros de Fortaleza, inspirou músicos da velha e da nova geração e rendeu livros, biografias, estudos em universidades estrangeiras e peças de teatro. Também pudera. Ninguém soube tão bem
cantar em verso e prosa os contrastes do sertão nordestino e a beleza de sua natureza. Talvez por isso, Patativa ainda influencie a arte feita hoje. O grupo pernambucano da nova geração 'Cordel do Fogo Encantado' bebe na fonte do poeta para compor suas letras. Luiz Gonzaga gravou muitas músicas dele, entre elas a que lançou Patativa comercialmente, 'A triste partida'. Há até quem compare as rimas e maneira de descrever as diferenças sociais do Brasil com as músicas do rapper carioca Gabriel Pensador. No teatro, sua vida foi tema da peça infantil 'Patativa do Assaré - o cearense do século', de Gilmar de Carvalho, e seu poema 'Meu querido jumento', do espetáculo de mesmo nome de Amir Haddad. Sobre sua vida, a obra mais recente é 'Poeta do Povo - Vida e obra de Patativa do Assaré' (Ed. CPC-Umes/2000), assinada pelo jornalista e pesquisador Assis Angelo, que reúne, além de obras inéditas, um ensaio fotográfico e um CD.
  Como todo bom sertanejo, Patativa começou a trabalhar duro na enxada ainda menino, mesmo tendo perdido um olho aos 4 anos. No livro 'Cante lá que eu canto cá', o poeta dizia que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que para 'ser poeta de vera é preciso ter sofrimento'.
  Patativa só passou seis meses na escola. Isso não o impediu de ser Doutor Honoris Causa de pelo menos três universidades. Não teve estudo, mas discutia com maestria a arte de versejar. Desde os 91 anos de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida, 'já disse tudo que tinha de dizer'. Patativa morreu em 08 de julho de 2002 na cidade que lhe emprestava o nome.




A — Ai, como é duro viver 
nos Estados do Nordeste 
quando o nosso Pai Celeste 
não manda a nuvem chover. 
É bem triste a gente ver 
findar o mês de janeiro 
depois findar fevereiro
e março também passar, 
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.
 

B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto, 
desfigurado e arrasto, 
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente, 
um jeito não pode dar, 
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando, 
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.
 

C — Caminhando pelo espaço, 
como os trapos de um lençol, 
pras bandas do pôr do sol, 
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando... sempre vagando, 
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.
 

D — De manhã, bem de manhã, 
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder, 
pra de fome não morrer, 
vai atrás de outro lugar, 
e ali só há de voltar, 
um dia, quando chover.
 

E — Em tudo se vê mudança
quem repara vê até
que o camaleão que é 
verde da cor da esperança, 
com o flagelo que avança, 
muda logo de feição.  
O verde camaleão 
perde a sua cor bonita 
fica de forma esquisita 
que causa admiração.
 

F — Foge o prazer da floresta 
o bonito sabiá, 
quando flagelo não há 
cantando se manifesta.
Durante o inverno faz festa 
gorjeando por esporte, 
mas não chovendo é sem sorte, 
fica sem graça e calado 
o cantor mais afamado 
dos passarinhos do norte.
 

G — Geme de dor, se aquebranta 
e dali desaparece, 
o sabiá só parece 
que com a seca se encanta.  
Se outro pássaro canta, 
o coitado não responde; 
ele vai não sei pra onde, 
pois quando o inverno não vem 
com o desgosto que tem 
o pobrezinho se esconde.
 

H — Horroroso, feio e mau 
de lá de dentro das grotas, 
manda suas feias notas 
o tristonho bacurau.
Canta o João corta-pau 
o seu poema funério, 
é muito triste o mistério 
de uma seca no sertão; 
a gente tem impressão
que o mundo é um cemitério.
 

I — Ilusão, prazer, amor, 
a gente sente fugir, 
tudo parece carpir
tristeza, saudade e dor.  
Nas horas de mais calor, 
se escuta pra todo lado 
o toque desafinado 
da gaita da seriema 
acompanhando o cinema 
no Nordeste flagelado.
 

J — Já falei sobre a desgraça 
dos animais do Nordeste; 
com a seca vem a peste 
e a vida fica sem graça.  
Quanto mais dia se passa 
mais a dor se multiplica; 
a mata que já foi rica, 
de tristeza geme e chora.  
Preciso dizer agora 
o povo como é que fica.
 

L — Lamento desconsolado 
o coitado camponês 
porque tanto esforço fez, 
mas não lucrou seu roçado.  
Num banco velho, sentado, 
olhando o filho inocente 
e a mulher bem paciente, 
cozinha lá no fogão 
o derradeiro feijão 
que ele guardou pra semente.
 

M — Minha boa companheira, 
diz ele, vamos embora, 
e depressa, sem demora 
vende a sua cartucheira.  
Vende a faca, a roçadeira, 
machado, foice e facão; 
vende a pobre habitação, 
galinha, cabra e suíno 
e viajam sem destino 
em cima de um caminhão.
 

N — Naquele duro transporte 
sai aquela pobre gente, 
agüentando paciente
o rigor da triste sorte.  
Levando a saudade forte 
de seu povo e seu lugar, 
sem um nem outro falar, 
vão pensando em sua vida, 
deixando a terra querida, 
para nunca mais voltar.
 

O — Outro tem opinião 
de deixar mãe, deixar pai, 
porém para o Sul não vai, 
procura outra direção.  
Vai bater no Maranhão 
onde nunca falta inverno; 
outro com grande consterno 
deixa o casebre e a mobília 
e leva a sua família 
pra construção do governo.
 

P - Porém lá na construção, 
o seu viver é grosseiro 
trabalhando o dia inteiro 
de picareta na mão.
Pra sua manutenção 
chegando dia marcado 
em vez do seu ordenado 
dentro da repartição, 
recebe triste ração, 
farinha e feijão furado.
 

Q — Quem quer ver o sofrimento, 
quando há seca no sertão, 
procura uma construção 
e entra no fornecimento.
Pois, dentro dele o alimento 
que o pobre tem a comer, 
a barriga pode encher, 
porém falta a substância, 
e com esta circunstância, 
começa o povo a morrer.
 

R — Raquítica, pálida e doente
fica a pobre criatura
e a boca da sepultura 
vai engolindo o inocente.  
Meu Jesus!  Meu Pai Clemente, 
que da humanidade é dono, 
desça de seu alto trono, 
da sua corte celeste 
e venha ver seu Nordeste 
como ele está no abandono.
 

S — Sofre o casado e o solteiro 
sofre o velho, sofre o moço, 
não tem janta, nem almoço, 
não tem roupa nem dinheiro.  
Também sofre o fazendeiro 
que de rico perde o nome, 
o desgosto lhe consome, 
vendo o urubu esfomeado, 
puxando a pele do gado 
que morreu de sede e fome.
 

T — Tudo sofre e não resiste 
este fardo tão pesado, 
no Nordeste flagelado 
em tudo a tristeza existe.  
Mas a tristeza mais triste 
que faz tudo entristecer, 
é a mãe chorosa, a gemer, 
lágrimas dos olhos correndo, 
vendo seu filho dizendo: 
mamãe, eu quero morrer!
 

U — Um é ver, outro é contar 
quem for reparar de perto 
aquele mundo deserto, 
dá vontade de chorar.
Ali só fica a teimar 
o juazeiro copado, 
o resto é tudo pelado 
da chapada ao tabuleiro 
onde o famoso vaqueiro 
cantava tangendo o gado.
 

V — Vivendo em grande maltrato, 
a abelha zumbindo voa, 
sem direção, sempre à toa, 
por causa do desacato. 
À procura de um regato, 
de um jardim ou de um pomar 
sem um momento parar, 
vagando constantemente, 
sem encontrar, a inocente, 
uma flor para pousar.
 

X — Xexéu, pássaro que mora 
na grande árvore copada, 
vendo a floresta arrasada, 
bate as asas, vai embora.  
Somente o saguim demora, 
pulando a fazer careta; 
na mata tingida e preta, 
tudo é aflição e pranto; 
só por milagre de um santo, 
se encontra uma borboleta.
 

Z — Zangado contra o sertão 
dardeja o sol inclemente, 
cada dia mais ardente 
tostando a face do chão.  
E, mostrando compaixão 
lá do infinito estrelado, 
pura, limpa, sem pecado 
de noite a lua derrama 
um banho de luz no drama 
do Nordeste flagelado.
 

Posso dizer que cantei 
aquilo que observei; 
tenho certeza que dei 
aprovada relação.
Tudo é tristeza e amargura, 
indigência e desventura. 
— Veja, leitor, quanto é dura 
a seca no meu sertão.

Fonte: Tanto 
Imagem 1 : Google imagem 
Imagem 2 :Tanto 

8 comentários :

  • Cris says:
    30 de setembro de 2010 20:50

    Lembrar dos grandes nomes da nossa literatura é sempre um estímulo à sensibilidade, principalmente dos nossos jovens, que hoje, pouco sabem sobre nossos Grandes escritores. Sem dúvida! Vale a pena conferir quem é PATATIVA DO ASSARÉ.
    Abraços!

  • FERNANDO says:
    2 de outubro de 2010 09:22

    Oi, Luizão.
    Faço minhas as palavras da Cris.
    Bom final de semana, abraços e muita serenidade na hora de fazer m..., digo, de votar (risos).

  • ONG ALERTA says:
    2 de outubro de 2010 22:31

    Pessoas especiais ficam para sempre, beijo Lisette.

  • Dom Quixote (Thomaz) says:
    3 de outubro de 2010 07:18

    Sempre boa a lembrança de gênios da cultura popular, como foi Patativa do Assaré, e a gente tomar contato com as várias facetas deste nosso imenso e diversificado país.

  • Paulo Braccini says:
    5 de outubro de 2010 12:05

    Patativa é um ícone no mundo dos poetas brasileiros ... adorável mesmo ...

    bjux

    ;-)

  • Lianara **Lia** says:
    5 de outubro de 2010 13:11

    Bom Dia!
    Vim agradecer sua visita e o carinho do seu comentário no meu blog.
    Nem sempre tenho tempo para comentar, mas sempre visito o seu ótimo blog!

    Beijos
    Lia

    http://liaks25.blogspot.com/

  • Beth Muniz says:
    3 de junho de 2013 12:49

    Oi Lu,
    Sou apaixonada pela obra do Patativa.
    Sou, e serei sempre.
    Obrigada pelo belo resgate.
    Valeu!
    Fui!

  • Maurício Silva says:
    4 de junho de 2013 07:24

    Se fosse em outro país, este nordestino seria um ícone mundial.
    Aqui no Brasil se perguntar 10 pessoas onde fica Assaré nenhuma responderá Ceará ou quem foi Antônio Gonçalves da Silva.

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Os maus tratos vividos em um casamento conturbado de uma mulher bem sucedida na vida vão transformar sua vida e viver um dilema de sentimentos. Ela luta com a ajuda da família, para solucionar o problema e se renova buscando a força necessária, para reviver uma nova historia, encontrado no acaso, através da ajuda de um homem desconhecido a força do amor que ira desabrochar e vai mudar toda sua vida. A mudança de um homem, que por causa de um atropelamento, ressurge, emerge para o brilho da vida e persevera, perseguindo seu real objetivo, para viver seu grande amor. Mesmo sabendo de todas as dificuldades que irá encontrar para prosseguir o seu caminho. Categorias: Romance, Poesia, Ficção e Romance, Ficção Palavras-chave: a, amor, do, força, fronteiras., sem. Clique na imagem que levará ao Clube dos Autores e adquira seu exemplar.