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23 de setembro de 2010

Votar Texto de Raquel de Queiroz em 1947

Artigo da Revista "O Cruzeiro" de 1947‏

Vejam uma matéria publicada em  1947  na Revista O Cruzeiro ass.  por Raquel de Queiroz que hoje fica muito atual e adaptável aos dias de hoje. Principalmente referindo-se ao voto das mulheres e dos analfabetos.

 

 

Votar
HÁ treze anos atrás preparava-se o Brasil para uma eleição importante. E em “O Cruzeiro” de 11 de janeiro de 1947, esta nossa Última Página assim falava aos amigos leitores:
“Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo político que se chama govêrno democrático, ou govêrno do povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato. No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: govêrno do povo. Porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOVÊRNO.
Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar pro determinado prazo de tempo.
Escolhem-se pelo voto aquêles que vão modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.
Escolhemos igualmente pelo voto aquêles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aquêles que irão estipular a quantidade dêsses impostos. Vejam como é grave a escolha dêsses “cobradores”. Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gôta de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bôlso.
E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhem-se não só aquêles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aquêles que vão “fabricar” o dinheiro. Esta é uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos. Pois se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Êles desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero.
Não preciso explicar muito êste capítulo, já que nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos no poder. (E pensar que isto foi escrito ainda em 1947!)
Escolhem-se nas eleições aquêles que têm direito de demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo burocrático.
E, circunstância mais grave e digna de todo o interêsse: dá-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de tôdas as fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias.
E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fêz um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a êsses sujeitos um simples emprêgo bem remunerado. Vâo lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para êles comandarem - e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe dá o povo. Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios fôssem. Entregamos a êsses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa mocidade, a êles prêsa por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o mostro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.
Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes. Votar não é assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva. Porque, afinal, a mulher quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o govêrno, quando é ruim, êle é que nos dá a surra, êle é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da bôca dos nossos filhos e nos faz aprodecer na cadeia. E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.
E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto. Meu amigo e leitor, se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar êste ou aquêle candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto.
Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem mêdo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem mêdo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno”.
* * *
De 1947 para cá o Brasil não mudou, nós não mudamos. Apenas nossos problemas ficaram mais graves, nossas responsabilidades mais sérias.
E então, como agora, só uma coisa quero acentuar:
Sim, dentro da cabine indevassável, não se esqueça de que você é um homem livre!

Fonte: Memória viva - O Cruzeiro

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva

Recebi por e-mail da amiga Sônia Miné

10 comentários :

  • Paulo Braccini says:
    23 de setembro de 2010 16:47

    Fantástico mesmo ... pena q tudo permanece a mesma coisa não é? lembro q certa vez no segundo ano de ginásio fiz uma interpretação de uma crônica de Raquel de Queiroz ...

    Lu, obrigado pelo carinho de vc e da Rita ... agradeço em meu nome e do Wanderley

    bjux aos dois

    ;-)

  • Deia says:
    23 de setembro de 2010 16:56

    Lu, tem certeza de que não foi escrito semana passada? Após assistir ao programa eleitoral mostrando o Tiririca? Fantático resgate (tirando a parte em que ela diz que eum mulher se bate - aí, graças a Deus, o tempo mudou e a tolerância já não é mais a mesma, graças a lei Maria da Penha!). Um forte abraço e sempre desejo de melhoras, Deia.

  • Professora Carla Fernanda says:
    23 de setembro de 2010 19:18

    Boa noite! Impressionante mesmo. Concordo com você! Estou trite porque um primo meu querido hoje nasceu para a vida eterna. Ontem ele me mandou um e-mail de despedida, que eu só abri hoje depois que fiquei sabendo que ele não acordou para esta vida.Parece que ele estava até advinhando. Mais uma vítima do cigarro! Enfim, estou triste!
    Carla Fern

  • Mariana says:
    23 de setembro de 2010 22:58

    Estou de queixo caido.
    Tu tem certeza q foi de 1947? então só piorou o neg´cio.
    Estamos ralados neste país.
    não tem mais conserto,eu desconfiava, mas tinha esperança...
    morreu....

  • sonialotus says:
    23 de setembro de 2010 23:42

    lu, quero sim trocar link, vc me deixou um recado no meu NOTICIAS AVISO AOS NAVEGANTES BY SONIALOTUS link http://sonialotusnavega.blogspot.com/2010/09/o-site-de-noticias-r7-nos-conta-algumas.html

    como fazemos? troca de link ou banner, eu tenho outros blogs tb...

    e o testo é otimo! kkk

  • sonialotus says:
    24 de setembro de 2010 01:13

    oi lu, botei seu link em 5 blogs meus, mas não sei onde está meu link aqui e nao sei quais sao seus outros blogs... deve ser o sono, mas se puder deixar uma dica, rsrss...

    boa noite pra oces todos!

  • Guará Matos says:
    24 de setembro de 2010 10:05

    A Safadeza é desde quando as caravelas apareceram po aqui e ealguém gritou: "Terra a vista!"
    A partir desse dia só "enterram" na gente, hahahahaha!
    Que coisa!
    O texto é de agora mesmo, é o que esta contecendo.
    Tudo igual.
    Bjs
    _______
    Nessa sexta-feira, 24/09/2010, às 22:00 hs, o BLABLABLA NO TELECOTECO/ http://blablablanotelecoteco.blogspot.com/ vai estar recebendo Ique, um dos maiores cartunistas do mundo. O cara é uma fera, realmente! Além das charges publicadas no JB, durante duas décadas, que o levaram a ganhar em duas edições o "Prêmio Esso de Jornalismo", Ique é um dos redatores do "Zorra Total"/ TV Globo e também escultor de sucesso.

    É nessa sexta feira, a partir de 22 horas. Não perca!

  • Sônia Silvino says:
    25 de setembro de 2010 03:10

    Incrível: mudam as moscas mas a m.... continua a mesma!
    Lu,
    Vim retribuir o seu carinho e a sua presença que me faz tão feliz!

    PRIMAVERA...


    “No balé das cores,
    Desfilando orquídeas
    Vejo minha vida
    Como reprise...

    Olhos brilhantes
    De sonhos tantos...
    Mágico instante
    Doce release...

    Fui primavera
    De harmonia , beleza
    Tantas certezas...

    Bela estação é esta!
    Mas, de certo, agora
    Sei apenas que chega... E vai embora...” (Rose Felliciano)

    Desejo um final de semana cheio de alegrias pra você!

    Beijinhos, muitos!

    Sônia Silvino's Blogs

    Vários temas & um só coração!

  • FERNANDO says:
    25 de setembro de 2010 10:19

    Oi, Luizão.
    Pois é, meu rei... depois ainda caíram de pau no Pelé, quando ele disse que brasileiro não sabia votar.
    Quem Deus nos ajude, amigão.
    Abraços e um ótimo final de semana pra vocês.

  • Denise Guerra says:
    26 de setembro de 2010 20:33

    Oi Lú, é engraçado como agente repete os problemas ano após anos; outro dia coloquei no Afrocorporeidade um texto do Lima Barreto falando das enchentes no Rio de Janeiro de 1900, o problema ainda rola nas grandes cidades tal qual em 1900, prova de que o progresso não resolve muitas coisas. Parabéns pela matéria. Dê um abraço na Rita e outro pra vc, estou com saudades de vcs dois. Bjs!

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Os maus tratos vividos em um casamento conturbado de uma mulher bem sucedida na vida vão transformar sua vida e viver um dilema de sentimentos. Ela luta com a ajuda da família, para solucionar o problema e se renova buscando a força necessária, para reviver uma nova historia, encontrado no acaso, através da ajuda de um homem desconhecido a força do amor que ira desabrochar e vai mudar toda sua vida. A mudança de um homem, que por causa de um atropelamento, ressurge, emerge para o brilho da vida e persevera, perseguindo seu real objetivo, para viver seu grande amor. Mesmo sabendo de todas as dificuldades que irá encontrar para prosseguir o seu caminho. Categorias: Romance, Poesia, Ficção e Romance, Ficção Palavras-chave: a, amor, do, força, fronteiras., sem. Clique na imagem que levará ao Clube dos Autores e adquira seu exemplar.