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13 de dezembro de 2013

A Ilusão das Redes Sociais

O narcisismo, a superficialidade e o distanciamento, entre outras características das relações virtuais, formam pessoas cada vez mais individualistas e egoístas

É indiscutível o importante papel que as redes sociais desempenham hoje nos rumos de nossa vida política e privada. São indiscutíveis também os avanços que introduziram nas comunicações, favorecendo o reencontro e a aproximação entre as pessoas e, se forem redes profissionais, facilitando a visibilidade e a circulação de pessoas e produtos no mercado de trabalho. A velocidade com que elas veiculam notícias, a extensão territorial alcançada e a imensa quantidade de pessoas que atingem simultaneamente não eram presumíveis cerca de uma década atrás, nem mesmo pelos seus criadores. Temos sido testemunhas, e também alvo, do seu poder de convocação e mobilização, assim como da sua eficiência em estabelecer interesses comuns rapidamente, a ponto de atuarem como disparadoras das várias manifestações e movimentos populares em todo o mundo atual.
Portanto, não podemos sequer supor que elas tragam somente meras mudanças de costumes, porque seu peso, associado ao desenvolvimento da informática, é semelhante à introdução da imprensa, da máquina a vapor ou da industrialização na dinâmica do nosso mundo. As redes sociais provocam mudanças de fundo no modo como as nossas relações ocorrem, intervindo significativamente no nosso comportamento social e político. Isso merece a nossa atenção, pois acredito que uma característica das redes sociais é, por mais contraditório que pareça, a implantação do isolamento como padrão para as relações humanas.
Ao participar das redes sociais acreditamos ter muitos amigos à nossa volta, sermos populares, estarmos ligados a todos os acontecimentos e participando efetivamente de tudo. Isso é uma verdade, mas também uma ilusão, porque essas conexões são superficiais e instáveis. Os contatos se formam e se desfazem com imensa rapidez; os vínculos estabelecidos são voláteis e atrelados a interesses momentâneos.
Além disso, as relações cultivadas nas redes sociais se baseiam na virtualidade, portanto, no distanciamento físico entre as pessoas. Isso nos permite, com facilidade, entrar em contato com as pessoas e afastá-las quando bem quisermos. Tal virtualidade garante comunicação sem intimidade. Em 1995, quando as redes sociais nem sequer eram cogitadas, o filme americano Denise Calls Up (Denise Está Chamando) já apresentava uma crítica às relações estabelecidas entre as pessoas através dos recursos da época: computador, telefone e aqueles enormes celulares. Os personagens eram alguns amigos que se comunicavam continuamente, mas tinham muitas dificuldades e até mesmo aversão de se encontrar pessoalmente. Também namoro e sexo aconteciam virtualmente.
Nunca me esqueci desse filme, impressionada que fiquei com a possibilidade, hoje tão iminente, de mutações essenciais nas condições de nossa existência. O que aconteceria conosco se não precisássemos mais da proximidade física de uns com os outros? O que morreria em nós, se essa proximidade deixasse de acontecer?
Quando Hannah Arendt, pensadora contemporânea da política, analisou os totalitarismos do século passado, apontou para o projeto desses sistemas de tornarem os homens supérfluos. Para tanto, entre outros expedientes, mantinham as pessoas isoladas umas das outras.
Separavam-nas de seus familiares, de suas comunidades, inclusive das pessoas com quem coabitavam nos galpões dos campos de concentração, instaurando entre elas a suspeita e o medo de delações. Isolavam classes sociais promovendo contendas e animosidades entre elas. Isolavam as pessoas do seu próprio eu, exaurindo-as com trabalho e mantendo-as doentes e famintas. O isolamento torna os indivíduos manipuláveis e controláveis, como coisas. Os sistemas totalitários sabem muito bem que, isolados, os homens perdem a capacidade de se expor e de agir.
Na nossa atualidade o isolamento tem um perfil diferente, porque é mais voltado para a intensificação do individualismo, cujos interesses afastam-se a cada vez mais das questões sociais. As recentes manifestações populares embora devam sua ocorrência às redes sociais, mantêm o caráter do individualismo e do isolamento, pois os participantes não criam vínculos entre si. Expressam suas opiniões, caminham juntos, mas é só isso.

Arendt tem por pressuposto de suas análises a condição humana da pluralidade, ou seja, o fato de vivermos entre homens e jamais chegarmos a ser nem um ser humano nem mesmo os indivíduos que somos longe da companhia dos outros. Os outros, tanto quanto o ambiente em que vivemos, nos constituem, daí que, se o distanciamento interpessoal for se estabelecendo como nova condição de existência, nossa própria humanidade poderá sofrer o impacto de uma mutação.
Os próprios equipamentos para acesso às redes, que estão conosco o tempo todo e exercem intenso fascínio sobre nós, corroboram com esse isolamento. Tenho ficado irritada com muitos de meus alunos que ficam consultando seus celulares e notebooks durante as aulas, como se estivessem fazendo anotações, mas acho que estão ligados às redes sociais. Talvez as aulas, sobretudo as de Filosofia, sejam muito chatas. Nelas não se pode pular de um assunto para outro, nem entrar em contato com múltiplas informações ao mesmo tempo, como se faz nas telas do computador, nem ficar livre de esforços do pensamento com análises e reflexões. Nas aulas não se pode passar por alto dos assuntos e situações.
Já em 1927, em seu livro Ser e Tempo, Martin Heidegger percebia esse comportamento cotidiano dos indivíduos de tomar tudo pelo aspecto e o nomeou de “avidez de novidades”. O que interessa é sempre a próxima novidade, o próximo assunto, a próxima notícia... Também identificava como “falação” um comportamento complementar: todos falam sobre tudo, sabem de tudo, mas não compreendem nada em profundidade.
Parece que “falação” e “avidez de novidades” estruturam a participação nas redes sociais. As pessoas já estão acostumadas a comentários rápidos e superficiais sobre tudo e todos. É fácil ver nesses comentários a preocupação de cada qual em simplesmente dar sua opinião, mais do que ouvir a alheia. A opinião do outro é apenas a oportunidade para se expressar a sua própria.
O outro parece importar, mas de fato não importa. Importam apenas a própria posição e a autoexposição. Daí a constante informação sobre as viagens, os pensamentos, as emoções, as atividades de alguém. É preciso estar em cena e sempre. Há nisso um evidente desenvolvimento do narcisismo e, consequentemente, do reforço do distanciamento entre as pessoas.
Faz parte desse narcisismo o fato de as pessoas terem de tratar a si mesmas como se fossem mercadorias. Em alguns de seus escritos, Zygmunt Bauman tem apontado para a necessidade das pessoas, sobretudo dos jovens, de se ocuparem sobremaneira com sua imagem nas redes sociais. Elas precisam escolher as fotos que melhor as apresentem, que as tornem atraentes e desejáveis. Aquelas que não souberem se vender correm o risco da invisibilidade e da exclusão.
Meu propósito, aqui, foi apenas o de levantar dados para uma reflexão. Mas quero acentuar que essas tendências das redes sociais – a virtualidade, o distanciamento, a superficialidade, a superfluidade do ser humano, a exposição narcísica, a ilusão de intimidade e popularidade, a “falação” e a “avidez de novidades”... – constituem o padrão de isolamento das relações pessoais. E quanto mais isolados, mais ficamos à mercê de controles e manipulações. Cada vez mais ameaçados na autoria do nosso destino pessoal e político.

12 comentários :

  • Beth Muniz says:
    13 de dezembro de 2013 07:57

    Fugazes, efêmeros e fúteis.

    São assim, a maioria das relações sociais e afetivas estabelecidas no mundo virtual.

    Infelizmente, as máscaras não podem ser arrancadas, e as pessoas podem permanecer nos seus esconderijos.

    Outra coisa que está se tornando “quase” natural é a construção de um estado de felicidade permanente, como se viver no mundo real fosse apenas felicidade. Pura hipocrisia.

    Ontem, no ônibus, eu tive que suportar uma menininha de no máximo sete anos, sem fones e ouvindo funk a todo volume. Ao lado, a mãe, achando graça da inteligência da filha. Isso às 7: 30 da manhã.

    O que podemos fazer? Individualmente, espalhar textos como este.

    Pessoalmente, educar e orientar os nossos filhos para que se relacionem bem com as pessoas e a sociedade.

    Afinal, educação se recebe em casa. Ensino, na escola.
    Valeu Lu.
    Abração.

  • Anete says:
    13 de dezembro de 2013 09:06

    Boa reflexão esta, Lu Cidreira!
    Temos que ter o equilíbrio em tudo, também na virtualização! Sabendo usar e tirar bons proveitos, é algo construtivo e abençoador...

    Muita paz e Bom Fim de Semana...

  • Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz says:
    13 de dezembro de 2013 10:37

    Eu não vejo o mundo virtual tão radicalmente ... eu procuro trazer para o plano real, na medida do possível é claro, todas as minhas relações virtuais ... este ano, por exemplo [2014], estou planejando ir à Bahia e aí quero conhecer os amigos Lu e Rita ...

    Beijão

    beijão

  • Dorli says:
    13 de dezembro de 2013 14:59

    Oi Lu,
    Cada um ao seu tempo
    Eu como mais velha sinto a falta do chega mais perto, do aperto de mão.
    Mas gosto também dessa modernidade, facilidade muito a nossa vida e temos a ilusão que conversamos cara a cara com alguém.
    Mas, a de se convir que em qualquer mudança temos que pagar um preço muito alto, pois pessoas são diferentes e muitas vezes podemos nos machucar.
    Ótima matéria
    Beijos
    Lua Singular

  • Anne Lieri says:
    13 de dezembro de 2013 16:48

    Eu adorei esse artigo e percebo que as pessoas estão mesmo cada vez mais isoladas em seus mundos virtuais. Já conversei com pessoas que não sabiam falar de outra coisa que não fosse de si mesma. Isso me preocupa! Bjs e um Natal bem alegre a vc e sua familia!Obrigada por sua presença em meus blogs este ano!

  • Maria de Lourdes says:
    13 de dezembro de 2013 22:46

    É o egoismo imperando no coração das pessoas. De longe todo mundo é bom, santo, sem defeitos e não enche o saco. É triste ver as pessoas se isolando cada vez mais uma das outras. É o convívio que nos faz crescer e aprender. Fico pasma de ver uma pessoa ficar o dia inteiro nas redes sociais. Isto se chama fuga, com sérias consequências mais tarde.

  • Luma Rosa says:
    14 de dezembro de 2013 01:48

    Oi, Lu!
    A última pesquisa sobre as redes sociais mostraram que os adolescentes já não usam mais como no passado e que o usuário padrão é mais maduro. Tipo a dona de casa que fica sozinha o dia todo ou a pessoa que se aposentou ou aquela que mora longe da família... Vou defender as redes sociais - até porque uso bem pouco - ela é usada mais por pessoa solitárias. Daí a questão é pensar porque existem tantas pessoas solitárias no mundo!
    Boas festas!!
    Beijus,

  • José María Souza Costa says:
    14 de dezembro de 2013 07:41

    Olá.
    Tomara que você esteja bem.
    Tomara que o seu fim de semana, seja maravilhoso.
    Que a felicidade, beije você, sempre.
    Bom fim de semana, com muitos risos.
    Um abraço.

  • Olinda Melo says:
    14 de dezembro de 2013 22:06


    Caro Luiz Cidreira

    Este texto é excelente. Traz para a nossa reflexão um assunto, as redes sociais, que já faz parte da vida das pessoas e que ameaça substituir a vida real.

    No entanto, como tudo na vida, também terá o seu lado positivo. O importante é sabermos equilibrar e aproveitar aquilo que de bom essa ferramenta nos poderá trazer.

    Obrigada pela divulgação. Gostei muito.

    Abraço

    Olinda

  • Dorli says:
    16 de dezembro de 2013 15:31

    Oi Lu Cidreira.
    Gostei de todos os comentários acima, cada um tem uma razão, mas a pior é se isolar.Mas, acontece que mesmo que você não entre na Net, vê-se a cidade fria, ninguém conhece ninguém.
    Formou-se um outro mundo e apesar de usar a net, gostaria de parar e logo irei despedir-me da Net.
    Aquelas pessoas que me marcaram, de vez em quando venho saudá-las.
    Boas férias
    Um beijo
    Lua Singular

  • Donetzka Cercck L. Alvarez says:
    16 de dezembro de 2013 19:39

    Realmente esse texto só diz verdades.

    As redes conseguem fazer meras amizades de mentirinha.Nada real.

    Tenho o face book ,mas dificilmente abro.
    Fiz o perfil por causa dos amigos o blog e família.

    Obrigada pelos comentários,Lu.

    Gosto muito dos seus porque sinto verdade neles.

    Também viajarei e retorno somente depois do Ano Novo.

    Assim que meu marido operar,volto de vez,possivelmente em janeiro,pois sinto muita falta de vocês,amigo.

    Beijos e um Natal e Ano Novo coberto de bênçãos para vc e família.

    Donetzka

  • Patricia Galis says:
    17 de dezembro de 2013 14:16

    O ser humano nunca esteve tão sozinho por isso a grande procura por redes e muito tem sim dificuldade em interagir com as pessoas ao vivo, lamentável.
    Já estou ausente do blog até janeiro mas passei aqui para te desejar um natal cheio de paz ao lado da sua família e um ano novo repleto de conquistas.

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Os maus tratos vividos em um casamento conturbado de uma mulher bem sucedida na vida vão transformar sua vida e viver um dilema de sentimentos. Ela luta com a ajuda da família, para solucionar o problema e se renova buscando a força necessária, para reviver uma nova historia, encontrado no acaso, através da ajuda de um homem desconhecido a força do amor que ira desabrochar e vai mudar toda sua vida. A mudança de um homem, que por causa de um atropelamento, ressurge, emerge para o brilho da vida e persevera, perseguindo seu real objetivo, para viver seu grande amor. Mesmo sabendo de todas as dificuldades que irá encontrar para prosseguir o seu caminho. Categorias: Romance, Poesia, Ficção e Romance, Ficção Palavras-chave: a, amor, do, força, fronteiras., sem. Clique na imagem que levará ao Clube dos Autores e adquira seu exemplar.